Vem. Senta aqui e esfria um pouco a cabeça. Tem charuto Cohiba Behike em cima da mesa e a bebida também está lá, sirva-se à vontade. Tire um pouco esse carma, esse gosto de fel das mãos, desarruma esse cabelo, tira o nó da gravata, desaba! -Tá escutando a música? "Tristeza não tem fim. Felicidade sim". Ah! Tom&Vinicíus! Cante comigo esse prazer!
Deixa eu te dizer: Há tempos te via lá fora assim quieto, manso, igual a criança em campo de concentração, clamando por vida. Tentando entrar algumas vezes, eu bem o lembro. Reneguei-o sempre, se soubesse quantas provas me traria.
Rasga essa cara molhada, insulta essa alma podre e insana! Não venha me dizer que tens alguma utilidade, pois só enxergo essa face pálida fria, sem reflexo, corpo refratado, insigne e torpe! Diz-me impacientemente por que veio, anuncia-me ao teu relento. Extrava essa missão, essa fissura, desarma! Bebe, bebe mais. Não é isso que te dá vida? Nem sabes tu o que é liberdade, pois a cada passo impensado refuta esse ideário utópico.
Tira essa roupa, vem nú, despido de qualquer tensão ou ofensa, de qualquer temor oportuno, fecha os olhos e passa para o lado de lá. Viaja nessa eternidade põe um pé depois o outro, típica corda bamba- o que não deixa de ser, viver é sempre um risco- e pula! Jogue-se, entregue-se ao branco, mas lembra-te no último segundo do meu ego e do meu desejo vil nas madrugadas torturosas.
Vai em paz -se é que conheces isso- e completa a tua antítese no berço divino.
Natália Vasconcelos