terça-feira, 22 de junho de 2010

"- Por você..."

Eu esperei tanto ouvir tua voz do outro lado da linha. Esperei cheio de felicidade ouvir-te dizer que estava morrendo de saudade e que sentiu a minha falta. Esperei, esperei...Mas ao perceber que o silêncio seria a minha única resposta, ah! eu chorei. Chorei como se chora um recém nascido que implora para não ser tirado do seu tão seguro abrigo. Chorei como se chora uma criança com sede e até mais do que quando você se foi pela primeira vez.
Insisti perguntando "é você? responda!" ímpetos de desespero, de delírio. Até que uma voz ressoou dizendo-me "Desculpe, foi engano." e desligou. Eu sabia que era você, eu tinha certeza! Não confundiria aquela voz nem que se passassem mil anos...não, a sua nunca! Arrependi-me de não ter-la dito tudo o que sentia naquele momento, me xinguei e chorei, te xinguei e chorei, disse coisas horríveis, que graças a Deus você não estava ali para ouvir. Espero que entendam a minha aflição. A pessoa que eu amava e que estava a tanto tempo longe, havia voltado, ligado pra mim e eu...eu? Nada fiz! 
Então soltei o telefone e o coloquei no gancho, tomei uma dose de uísque- o mais forte que tinha- acendi um cigarro, fui para a varanda e sentei. A rua parecia calma, poucos carros, poucas pessoas, isso me fez sentir mais angustiado, mais só e culpado: "como pude?". 
Até que um táxi parou e os ruídos de um choro alheio me tomaram a atenção. Era ela! Eu pude ver, eu pude sentir , pude gritar, berrar, mas...ela não me olhou, continuou indiferente e a chorar, chorávamos eu e ela. 
Rapidamente desci e em poucos segundos estava lá. Não foi o suficiente para alcança-la. Eu a vi partir mais uma vez, tinha certeza que dessa vez era para sempre, algo me dizia, os sinais estavam claros, era uma despedida e isso me doía.
E ficamos ali sozinhos. Eu, os carros, a rua, as pessoas e o bilhete.


Natália Vasconcelos

terça-feira, 15 de junho de 2010

Quem?

É tão previsível, inexorável, infame.
Sempre dessa maneira, dessa mesma forma,
Forma (ô), Feio, Face, Fosco.

Chega e vai. Vai e  vem.
Me toma, me machuca,
Me corre, me lambuza,
Leva, Lua, Lenço.

Quando fica... estremece!
De relance me tenta,
Me reinventa, me cura.

Já de partida...
     ...
         ...
             ...


Natália Vasconcelos

Dá-me II

Deixa-me transparente,
Assim estarei segura.
Deixa-me só, trancada, sufocada,
Assim ficarei melhor.
Assim terei motivos pra sorrir.
Tira-me daqui,
Antes que seja tarde.
Tira-te de mim,
Renuncia Obsoleto!

Natália Vasconcelos

Dá-me I

Deixa-me voar, flutuar...preciso inspirar liberdade, enchendo-me os pulmões de aventura, realimentando o meu corpo. Preciso sentir friamente o vento cortante em meu rosto, preciso conhecer a imensidão, eu tenho necessidade de viver!Quero ir de um lado para outro, planando sob as árvores, deslizando no azul.
Quero sair daqui. Pra que fincar os pés no chão? Há tanta vida lá fora, posso ver aqui de cima. E.. e simplesmente rio, é! dou gargalhadas. É interessante ver como eles morrem de fome antes mesmo de receberem o trigo. Em contradição enche-me os olhos ver aquela mulher, de um certa idade, passando todo o ensinamento que um dia lhe foi dado e a filha ali, escutando tudo com atenção e aliviada. Mais apaixonante ainda é ouvi-la dizer: "o amor existe sim!". Pena que eu tenha aprendido isso só aqui.
Eu quero sim ter asas, quero poder ser o líder e emanar o meu bando para o sul, quando no norte for inverno. Quem sabe olhar-te de longe, com fascínio. Admirando-te. E depois viajar...viajar...me livrando daquilo tudo novamente.
Fuga? Ah sim! É a minha única opção, entenda caro leitor... eu preciso voar, eles me chamam.

Natália Vasconcelos

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Disparatado

Seu deleite é breve, seu querer mais breve ainda. O seu capricho é horonso, seu almejo decente. Tua luz fúnebre, o teu choro é falso. Teu sorriso pitoresco, teu calor inefável.
Não sei o que esperar desse mundo devasto ou  muito menos desse teu desdém. A cada dia que passa me esquivo mais dessa tua apatia , talvez por medo, talvez por talvez.
Parece-me estranho. Eu sei quem é, sei porque estou ali, sei o que aquilo representa pra mim, mas falta, não posso reconhecer e se reconheço, aquilo repugna-me.
Mesmo assim, passaria horas olhando aquelas fotos, passaria séculos esperando... mas pra que? porque? e depois? Não tem sentido.
Sentada no ônibus, ligo o rádio, apoio a cabeça no vidro da janela, admiro a paisagem, penso em você. Olho pra um novo passageiro que entra, penso em você. Desço, saio, caminho o pouco - escutando a nossa música- vejo flores com as nossas cores, dou 'boa tarde' a alguém com a cor dos teus olhos e finalmente... sinto a sua falta.
Mas você ainda é você mesmo? É nesse ponto que quero chegar. Na tua essência, bem lá perto da tua alma, perto daquilo que te faz ser, daquilo que te faz sonhar, sorrir, viver. Quero rasgar, quero entrar e fixar-me, num mutualismo divino, nos descobrindo a cada instante.Quero mais! 
Esse tempo não é tão longo assim, eu bem o sei! tens calma  pequeno Coração, a vida não é só isso. 

Natália Vasconcelos